Peso de Nossa Terra








Dizem os grandes poetas que o Brasil é todo sol,
que o Brasil é todo festa, que seu céu é sempre azul.
Mas eu vejo mãos crispadas, erguidas, desesperadas,
clamando de norte a sul.


Mãos do Brasil primitivo correndo na selva imensa,
mergulhado na descrença,
fugindo no próprio lar! Nu, pagão e decadente, abandonado e doente,
sem forças para lutar.

Mãos crispadas do norte de minha terra perdido no inferno
verde do verde seringal. Afogado na lama, em cabana de palha,
morrendo de febre - destino fatal!

Braços erguidos do nordeste, mãos crispadas, ressequidas de sol,
suplicando água, um arbusto, uma sombra,
um resto de justiça, um novo arrebol.

Mãos do Brasil de roupa rasgada, do homem da enxada,
que faz "simpatia" para não morrer;
do Brasil que nunca fez greve, que nem sabe pedir aumento,
para quem o sofrimento já faz parte do viver.

Mãos do Brasil que vive em barracos, subindo o morro em busca de ar;
que transforma em samba a própria miséria,
que se afoga no vício, para não chorar.

Mãos revoltadas das filas enormes, dos desempregados, doentes e réus.
Mãos que blasfemam, maldizem e matam,
mãos desgraçadas, perdidas, sem Deus.

Mãos pequeninas do Brasil criança,
que puxam miséria em vez de carinho;
Crianças sozinhas de olhos enormes,
que pedem migalhas de pão e carinho...

Basta, Senhor, de braços estendidos,
de mãos descarnadas,
quais estrelas apagadas,
sem brilho, sem luz.
Basta, Senhor, por piedade,
faze-nos raios de Tua claridade,
para mostrar-lhes Jesus.

Peso de nossa terra, grito de nosso povo,
que suplica um mundo novo onde haja paz e amor.
Como gozar nossa crença, deixando na treva imensa
o povo que é nosso povo, a terra que nossa terra, Senhor?

Olha, Senhor, teu povo ajoelhado,
clamando angustiado pela grande nação.
Arranca-nos, Senhor, do comodismo, faze-nos mártires,
se assim for preciso, mas salva nossa Pátria e limpa nossa mão.  

Myrtes Mathias

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